A Estação Internacional de Canfranc: 100 anos de história no meio dos Pirenéus
Um palácio ferroviário de 241 metros erguido num vale de 500 habitantes. Foi a estação mais ambiciosa do seu tempo, uma fronteira de espiões na Segunda Guerra Mundial e uma ruína durante décadas. Hoje é um hotel de luxo — e pode ver-se por dentro.
A Estação Internacional de Canfranc foi inaugurada em 1928 no vale do Aragão (Huesca) para unir Espanha e França por caminho de ferro através do Somport. Como cada país usava uma bitola diferente, todos tinham de mudar de comboio ali: daí um edifício com 241 metros de fachada e 365 janelas. Durante a Segunda Guerra Mundial foi passagem de volfrâmio e de ouro nazi, e também via de fuga para centenas de perseguidos, com o aduaneiro francês Albert Le Lay como peça-chave. A linha foi cortada em 1970 com o colapso da ponte de L’Estanguet e a estação ficou abandonada. Reabilitada, abriu a 27 de janeiro de 2023 como Canfranc Estación, a Royal Hideaway Hotel (Barceló Hotel Group), com 104 quartos. Vê-se por dentro com visitas guiadas desde 15 €.
Neste guia
Por que uma estação tão enorme num vale tão pequeno1928: reis, presidentes e um comboio que quase ninguém usouA Segunda Guerra Mundial: «a Casablanca dos Pirenéus»Albert Le Lay, o «Schindler de Canfranc»1970: a ponte que mudou tudoO hotel: Canfranc Estación, a Royal Hideaway HotelComo visitar a Estação de Canfranc hojePerguntas frequentes
Por que uma estação tão enorme num vale tão pequeno
A resposta cabe em duas palavras: bitola da via. Espanha construiu a sua rede ferroviária com uma via mais larga do que a europeia, pelo que nenhum comboio francês podia seguir viagem por Espanha, nem o contrário. Na fronteira era preciso fazer descer todos os passageiros e transferir todas as mercadorias de um comboio para outro, com duas alfândegas, duas polícias e duas administrações a fazer a papelada ao mesmo tempo.
Isso não se resolve com um apeadeiro: resolve-se com uma cidade sob um telhado. O edifício mede 241 metros de comprimento e 12,5 de largura, tem 75 portas em cada lado e 365 janelas — uma por cada dia do ano, diz a tradição local. Por fora parece um palácio francês do século XIX; por dentro era uma máquina logística de betão, pedra, ferro e vidro, com coberturas de xisto.
Durante décadas disse-se que era «a segunda maior estação da Europa», atrás de Leipzig. A comparação é discutível, mas dá bem a medida da ambição do projeto.
1928: reis, presidentes e um comboio que quase ninguém usou
A estação foi inaugurada a 18 de julho de 1928 com o rei Afonso XIII e o presidente francês Gaston Doumergue. Era o culminar de décadas de obras: o túnel do Somport, os viadutos, a esplanada ganha ao vale, tudo para ligar Saragoça a Pau e, em teoria, colocar os Pirenéus aragoneses no mapa do comércio europeu.
O tráfego nunca esteve à altura do edifício. A Guerra Civil espanhola fechou a linha e, quando voltou a abrir, o mundo já era outro: a Europa entrava em guerra e Canfranc deixou de ser uma promessa comercial para se tornar em algo muito mais turvo.
A Segunda Guerra Mundial: «a Casablanca dos Pirenéus»
Entre 1940 e 1944, com a França ocupada e Espanha oficialmente neutra, Canfranc foi uma das poucas frinchas abertas entre a Europa nazi e o exterior. Pelas suas plataformas passou o volfrâmio que o regime de Franco vendia ao Terceiro Reich — mineral essencial para blindagens e munições — e, em sentido contrário, ouro do espólio nazi que servia para o pagar.
Pelas mesmas plataformas, e muitas vezes nos mesmos comboios, passaram judeus, aliados, pilotos abatidos e refugiados que fugiam da ocupação. Espiões dos dois lados viviam na aldeia. Daí o apelido que ficou: a Casablanca dos Pirenéus.
Boa parte desta história só se soube tarde. No ano 2000 apareceram na própria estação caixas com documentação da alfândega francesa — guias de remessa, registos de mercadorias — que permitiram reconstruir o volume real daquele tráfego.
Albert Le Lay, o «Schindler de Canfranc»
Albert Le Lay era o chefe da alfândega francesa em Canfranc. O seu gabinete estava dentro da estação, no lado francês do edifício, e a sua assinatura decidia quem atravessava e quem não. Le Lay usou esse poder para o contrário do que se esperava dele: facilitou documentação, olhou para o lado e organizou passagens para centenas de pessoas que fugiam do nazismo. Acabou por ter de fugir ele mesmo.
A sua história é hoje o coração da visita teatralizada da Estação de Canfranc: hora e meia em que um ator se põe na pele de Le Lay e o leva pelos mesmos espaços onde tudo aconteceu. É a forma mais direta de entender o que aqui se jogava.
1970: a ponte que mudou tudo
O fim chegou por acidente. Em 1970 um comboio de mercadorias descarrilou do lado francês e levou consigo a ponte de L’Estanguet. A França, que há muito considerava a linha deficitária, decidiu não a reconstruir. Sem ponte não havia ligação internacional e, sem ligação internacional, a estação não tinha função.
Seguiram-se mais de trinta anos de abandono: infiltrações, vidros partidos, pombos e uma fachada a cair enquanto o edifício se tornava objeto de peregrinação para fotógrafos e exploradores urbanos. Em 2002 foi classificada como Bem de Interesse Cultural, o passo que tornou possível tudo o que veio depois.
O hotel: Canfranc Estación, a Royal Hideaway Hotel
A reabilitação, impulsionada pelo Governo de Aragão, devolveu a estrutura e a fachada de 1928 e adaptou o interior a um uso novo. A 27 de janeiro de 2023 o edifício reabriu como Canfranc Estación, a Royal Hideaway Hotel, a marca de luxo do Barceló Hotel Group: 104 quartos — 4 deles suites — nos primeiro e segundo pisos, com o rés do chão dedicado à zona de bem-estar com piscina climatizada, à biblioteca e ao restaurante principal, para o qual se recuperaram vagões de época.
O resultado é invulgar e muito bom: um hotel onde o corredor dos quartos é literalmente o edifício de uma estação internacional, e onde o vestíbulo continua a ser o vestíbulo por onde passaram os comboios de 1928. Que o edifício tenha hoje um uso económico é, além disso, o que garante que continue de pé.
Não é preciso ficar alojado para ver por dentro: as visitas guiadas entram no edifício e percorrem tanto o interior como o entorno ferroviário.
Como visitar a Estação de Canfranc hoje
Há três formas de a conhecer, e completam-se bem:
- Visita guiada especial: 1 h 30 min com guia local, 8 paradas pelo interior e o entorno ferroviário e acesso a zonas restritas que não se veem na visita normal. Desde 15 € por pessoa. É a opção por defeito se só vai fazer uma.
- Visita teatralizada com Albert Le Lay: 1 h 30 min com um ator que interpreta o aduaneiro francês. Desde 18 €. Realiza-se apenas em espanhol.
- Paseo de los Melancólicos e bunkers: cerca de 2 h a pé por caminhos e bosque, com as melhores vistas exteriores do conjunto e a explicação de por que o vale se encheu de fortificações. Tour privado desde 40 €.
Canfranc-Estación fica no vale do Aragão, a cerca de 25 km de Jaca e junto ao túnel do Somport. Se vier passar o dia, o habitual é combinar uma visita à estação de manhã com uma atividade de montanha à tarde: no verão, caminhadas; no inverno, raquetes ou esqui em Astún e Candanchú.
Perguntas frequentes
Pode visitar-se a Estação Internacional de Canfranc?
Sim, com guia. O edifício é hoje o hotel Canfranc Estación, a Royal Hideaway Hotel (Barceló), e visita-se em percursos guiados. A visita guiada especial dura 1 h 30, percorre o interior e o entorno ferroviário em 8 paradas e entra em zonas restritas. Desde 15 € por pessoa.
Por que a Estação de Canfranc é tão grande?
Porque Espanha e França usavam bitolas diferentes e todos os passageiros e mercadorias tinham de mudar de comboio ali. Isso obrigou a um edifício de 241 metros de fachada, 365 janelas e 75 portas por lado, com as alfândegas e os armazéns dos dois países sob o mesmo telhado.
Quando foi inaugurada e quando fechou?
Foi inaugurada em 1928 com Afonso XIII e o presidente francês Gaston Doumergue. A linha internacional foi cortada em 1970, com o colapso da ponte de L’Estanguet do lado francês. É Bem de Interesse Cultural desde 2002.
O que aconteceu em Canfranc durante a Segunda Guerra Mundial?
Pelas suas plataformas passou o volfrâmio que Espanha vendia ao Terceiro Reich e ouro do espólio nazi, e ao mesmo tempo centenas de judeus e perseguidos que fugiam da França ocupada. O chefe da alfândega francesa, Albert Le Lay, ajudou-os a atravessar: por isso lhe chamam «o Schindler de Canfranc».
É hoje um hotel?
Sim. Abriu a 27 de janeiro de 2023 como Canfranc Estación, a Royal Hideaway Hotel, do Barceló Hotel Group, com 104 quartos (4 suites), conservando a estrutura e a fachada originais de 1928.